#0006 Radar Planeja
Faturamento, vendas e IA: quatro movimentos que merecem a atenção de quem administra uma empresa
Nem sempre uma boa notícia nos números conta toda a história.
Nesta semana, quatro movimentos ajudam a mostrar isso: pequenas empresas registraram crescimento de vendas mesmo com queda no número de transações; empresas B2B ainda têm dificuldade para confiar nos dados que orientam suas decisões; a IA está tornando mais fácil criar software; e um caso brasileiro mostra como inteligência artificial e dados podem melhorar decisões comerciais e margem.
O ponto em comum é simples:
Mais informação não significa necessariamente melhores decisões. É preciso entender o que existe por trás dos números.
Financeiro — Faturamento maior não significa necessariamente mais clientes
O Fiserv Small Business Index mostrou que, em julho, as vendas das pequenas empresas americanas cresceram 1,6% em relação ao ano anterior.
Mas existe um detalhe importante: o valor médio das transações aumentou 3,2%, enquanto o número de transações caiu 1,6%.
Ou seja, o crescimento das vendas não veio necessariamente de mais clientes comprando.
Para quem administra uma empresa, esse é um bom lembrete: faturamento isoladamente não explica o negócio.
Quando a receita cresce, vale investigar:
Vieram mais clientes? O ticket aumentou? Houve reajuste de preços? O mix mudou? Os mesmos clientes estão comprando mais?
Duas empresas podem crescer 10% e estar vivendo situações completamente diferentes.
Quando a receita cresce, a próxima pergunta deveria ser: cresceu por quê?
Fonte: Fiserv — Small Business Index, July 2026.
Comercial — Ter dados não significa saber onde agir
Uma pesquisa recente com profissionais de empresas dos Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha encontrou uma contradição interessante.
Embora dados sejam utilizados para orientar estratégias e investimentos, apenas 49% dos pesquisados disseram confiar muito na precisão e completude dessas informações.
Somente 35% possuíam relatórios totalmente integrados entre canais, enquanto 37% ainda utilizavam planilhas manuais.
O problema, portanto, não parece ser simplesmente falta de dados.
Empresas já possuem CRM, redes sociais, sites, campanhas, sistemas comerciais e diversas outras fontes de informação.
A dificuldade está em conectar tudo isso a perguntas empresariais importantes:
De onde vêm as melhores oportunidades?
Quais ações realmente produzem vendas?
Onde vale concentrar o esforço comercial?
Um indicador só é útil quando ajuda alguém a tomar uma decisão.
Ter indicadores é diferente de confiar neles. E confiar neles é diferente de saber decidir com eles.
Fonte: MarTech / 10Fold — pesquisa sobre confiança nos dados utilizados em decisões de marketing B2B.
Inteligência Artificial — Se ficou mais fácil criar software, o que passa a ter valor?
A popularização do chamado vibe coding — criação de aplicações com forte apoio da inteligência artificial — está reduzindo a barreira técnica para desenvolver software.
Isso levanta uma pergunta interessante para o mercado empresarial:
Se ficou muito mais fácil construir uma aplicação, por que comprar uma pronta?
Uma análise recente da Reuters mostrou que a resposta ainda passa por fatores que vão muito além de gerar código.
Pesquisa da BCG citada na análise indicou que apenas 10% das empresas utilizam seus orçamentos de IA para desenvolver ferramentas totalmente internamente, enquanto 78% pagam empresas terceiras para ajudá-las na adoção da tecnologia.
Sistemas empresariais precisam lidar com segurança, permissões, integrações, auditoria, escala, manutenção e mudanças regulatórias.
A inteligência artificial pode tornar muito mais fácil construir um protótipo.
Isso não significa que tornou simples construir uma solução empresarial confiável.
Quanto mais fácil ficar criar tecnologia, mais importante ficará demonstrar o valor que existe além do código.
Fonte: Reuters Breakingviews — análise sobre vibe coding e o mercado de software empresarial, 18/08/2026.
IA na prática — O caso da ArcelorMittal Brasil
Talvez o exemplo mais interessante desta semana venha do Brasil.
A ArcelorMittal possuía mais de mil representantes comerciais no país, mas muitas decisões dependiam da experiência individual dos vendedores, consultas a diferentes sistemas e contatos com a sede para verificar informações como preço, estoque e prazo.
Em parceria com a McKinsey, a empresa desenvolveu o AMis, um assistente comercial apoiado por inteligência artificial.
A ferramenta reúne informações sobre preços, estoque, entrega e histórico do cliente e oferece recomendações durante o trabalho comercial.
Segundo o case publicado pela McKinsey, vendedores passaram a gerar cotações por voz durante reuniões, registrar conversas automaticamente e receber recomendações baseadas no histórico de compras.
No piloto, o impacto estimado em margem chegou a R$ 53 milhões, enquanto os contatos com clientes quase triplicaram. Posteriormente, a adoção chegou a aproximadamente 70% da força comercial.
Mas existe um detalhe especialmente interessante.
Antes da transformação, a empresa valorizava fortemente volume vendido. Isso podia estimular descontos capazes de aumentar toneladas vendidas, mas prejudicar margem.
A nova abordagem passou a considerar também rentabilidade.
A tecnologia, portanto, não serviu apenas para o vendedor trabalhar mais rápido.
Serviu para ajudá-lo a decidir melhor.
A melhor informação é aquela que chega no momento em que alguém precisa decidir.
Fonte: McKinsey / ArcelorMittal Brasil — From instinct to real-time insight: Transforming steel sales with AI.
O que levamos desta semana?
Os quatro assuntos apontam para algo em comum.
Uma empresa pode aumentar faturamento sem aumentar o número de clientes.
Pode possuir muitos indicadores sem confiar completamente neles.
Pode criar tecnologia mais rapidamente sem necessariamente construir uma solução empresarial confiável.
E pode utilizar inteligência artificial não apenas para automatizar tarefas, mas para melhorar decisões que afetam diretamente vendas e margem.
Talvez essa seja a reflexão mais importante desta edição:
Um número só se torna informação quando entendemos o que existe por trás dele. E informação só gera resultado quando muda uma decisão.
Sobre o Radar Planeja
Radar Planeja é uma curadoria semanal sobre finanças, vendas e inteligência artificial para quem precisa tomar decisões.
Toda semana, selecionamos acontecimentos, pesquisas e casos reais que merecem alguns minutos da atenção de quem administra uma empresa.
Planeja — Estratégia, Execução e Resultado

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