terça-feira, 8 de setembro de 2026

#0008 Radar Planeja

 

Esta semana trouxe quatro sinais brasileiros que merecem atenção: a indústria voltou a crescer, mas ainda mostra fraqueza nos investimentos; o varejo apresenta crescimento nominal sem crescimento real; metade das empresas brasileiras já usa inteligência artificial, mas poucas chegaram a um estágio realmente avançado; e um case nacional mostra IA transformando um gargalo comercial em centenas de milhões de reais em vendas processadas.

1. FINANCEIRO — A indústria voltou a crescer, mas o investimento ainda preocupa

A produção industrial brasileira avançou 0,2% em julho, interrompendo dois meses consecutivos de queda. No acumulado de 2026, a alta é de 1,1%. Porém, olhando além do número principal, aparecem sinais de fragilidade.

A produção de bens de capital — máquinas e equipamentos usados pelas próprias empresas para produzir — caiu 2,4% frente a julho de 2025, acumulando quatro meses consecutivos de retração nessa comparação. Os juros elevados aparecem entre os fatores que dificultam novos investimentos.

Por que isso importa: quando empresas deixam de comprar máquinas, ampliar capacidade ou modernizar operações, não estamos observando apenas o resultado do mês. Estamos vendo decisões sobre o futuro sendo adiadas.

Para quem administra uma empresa, o aprendizado é relevante: investimento não deve ser decidido apenas pela disponibilidade de dinheiro, mas pelo retorno esperado diante do custo do capital.

Mensagem para a equipe:

Juro alto não aumenta apenas a despesa financeira. Ele aumenta a régua que um investimento precisa superar para valer a pena.

Fonte: Agência Brasil — Produção industrial interrompe dois meses de queda


2. COMERCIAL — Faturamento pode crescer enquanto o varejo vende menos

O Índice Antecedente de Vendas do Instituto para Desenvolvimento do Varejo apresentou um sinal que merece atenção.

Em julho, as vendas nominais do comércio avançaram 1,7%, mas, descontada a inflação, as vendas reais recuaram 2,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Para agosto, setembro e outubro, o instituto continua projetando crescimento nominal, mas retração quando considerado o efeito dos preços.

Ou seja: parte do crescimento percebido no caixa pode vir simplesmente de preços maiores.

Isso coloca uma pergunta importante para qualquer área comercial:

Estamos vendendo mais ou apenas faturando mais?

Volume, quantidade de clientes, frequência de compra, ticket e preço precisam ser analisados separadamente.

Por que isso importa: em um mercado mais pressionado, olhar apenas o faturamento pode esconder perda de clientes, queda no volume vendido ou redução da frequência de compra.

Mensagem para a equipe:

Faturamento mostra quanto entrou. Volume e frequência ajudam a explicar se o mercado realmente está comprando mais.

Fonte: Mercado & Consumo — Vendas reais no varejo caem 2,8% em julho


3. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL — O Brasil já passou da fase do “vamos usar IA?”

Uma pesquisa apresentada no AWS Summit São Paulo nesta semana indica que 50% das empresas brasileiras já utilizam inteligência artificial, contra 40% no ano anterior.

Mas somente 15% chegaram a um estágio considerado avançado, utilizando múltiplos modelos, soluções personalizadas ou agentes autônomos.

Existe outro dado ainda mais interessante: apenas 33% das empresas dizem confiar na própria capacidade de medir com precisão o retorno do investimento em IA, e somente 28% possuem uma estrutura consistente para fazer essa medição.

Isso muda a conversa.

A questão já não é mais:

“Devemos usar inteligência artificial?”

Cada vez mais, passa a ser:

“Onde estamos usando? Que problema resolve? E qual resultado conseguimos medir?”

Por que isso importa: adoção não significa maturidade. Uma empresa pode utilizar IA diariamente e ainda não saber se aquilo produz economia, receita, velocidade ou melhoria de decisão.

Mensagem para a equipe:

Usar IA está ficando comum. Saber onde ela produz resultado continuará sendo diferencial.

Fonte: Exame — Adoção de IA nas empresas brasileiras chega a 50%


4. IA APLICADA AO COMERCIAL — Um gargalo de 40 minutos virou poucos segundos

O caso brasileiro mais interessante desta semana vem do Grupo Elfa, uma das grandes distribuidoras de medicamentos e produtos de saúde do país.

A empresa recebia milhares de cotações em formatos diferentes: e-mails, planilhas, PDFs, textos e até imagens. Processar manualmente uma cotação com cerca de 100 itens podia consumir aproximadamente 40 minutos do vendedor. Em alguns casos, pedidos chegavam a levar dias para serem processados.

O Grupo Elfa criou o CotAI, solução de inteligência artificial que interpreta essas solicitações, estrutura as informações, consulta dados de preço e logística e cria automaticamente a oportunidade no CRM.

Hoje, essa etapa pode ocorrer em poucos segundos, ficando para o vendedor a validação e negociação.

Segundo o case publicado pela Fundação Dom Cabral, em 12 meses o CotAI esteve associado a R$ 240 milhões em faturamento, alcançou 99,2% de acurácia e permitiu que o vendedor dedicasse muito menos tempo ao trabalho operacional.

O ponto mais importante talvez não seja a automação.

A IA não tentou substituir o vendedor naquilo que ele fazia melhor.

Ela retirou dele aquilo que consumia tempo antes da negociação.

Por que isso importa: esse é um excelente exemplo de IA aplicada a um gargalo concreto. Primeiro identificou-se onde oportunidades estavam sendo perdidas. Depois colocou-se tecnologia exatamente nesse ponto.

Mensagem para a equipe:

A melhor automação não começa perguntando “onde podemos colocar IA?”. Começa perguntando “onde estamos perdendo tempo, dinheiro ou oportunidade?”.

Fonte: Fundação Dom Cabral — Grupo Elfa fatura R$ 240 milhões com solução de IA para cotação

5. CONCLUSÃO — O que esses quatro movimentos dizem?

Existe uma linha bastante clara nesta semana.

A indústria mostra que decidir investir ficou mais difícil quando o dinheiro custa caro.

O varejo mostra que um indicador positivo pode esconder uma dinâmica comercial enfraquecida.

A pesquisa sobre inteligência artificial mostra que adotar tecnologia é muito mais fácil do que medir o valor produzido por ela.

E o Grupo Elfa apresenta o contraponto: quando existe um problema bem identificado, é possível ligar tecnologia diretamente a tempo economizado, oportunidades atendidas e resultado comercial.

Para o Planeja, o aprendizado é especialmente coerente com aquilo que estamos buscando construir:

não basta mostrar o número. Precisamos ajudar a entender o que está provocando aquele número e onde existe algo que merece ação.

Mensagem da semana

Antes de procurar uma solução, encontre o ponto onde a empresa está perdendo resultado. A tecnologia e os indicadores devem vir depois.

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