#0009 Radar Planeja
Inflação, comportamento de compra e inteligência artificial: quatro movimentos brasileiros que merecem a atenção de quem administra uma empresa
Nesta semana, quatro movimentos chamaram nossa atenção.
O Brasil registrou deflação em agosto, mas isso não significa que os custos das empresas estejam diminuindo da mesma maneira. Consumidores começam a utilizar inteligência artificial para pesquisar preços, promoções e até a credibilidade das empresas antes de comprar. No ambiente empresarial, agentes de IA avançam rapidamente, enquanto governança e controle ainda aparecem como desafios. E um banco brasileiro mostra o que pode acontecer quando a tecnologia é colocada exatamente onde existe um gargalo comercial.
Quatro assuntos diferentes que levam a uma reflexão comum:
o primeiro número ou a primeira informação raramente contam a história inteira.
FINANCEIRO — Deflação no mês significa custos menores para sua empresa?
O IPCA brasileiro fechou agosto em -0,32%, a menor taxa mensal em quatro anos. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,22%, ante 4,44% em julho.
É um número importante. Mas sua composição merece atenção.
Boa parte da queda veio de habitação (-1,87%), influenciada pelo bônus de Itaipu na energia elétrica. Alimentação e bebidas recuaram 0,34% e transportes caíram 0,86%.
Ao mesmo tempo, outros grupos, como despesas pessoais, artigos de residência, educação e saúde, registraram aumento.
Isso ajuda a mostrar por que a inflação oficial não deve ser confundida com a estrutura de custos de uma empresa.
Cada negócio possui sua própria combinação de despesas.
Folha de pagamento, aluguel, energia, matéria-prima, serviços contratados, transporte, juros e outros custos possuem pesos diferentes dependendo da atividade.
Por isso, mesmo em um mês de deflação, uma empresa pode continuar enfrentando aumento relevante em suas despesas.
E isso também afeta decisões sobre preços e margem.
Inflação é média. Custo empresarial é a realidade específica de cada negócio.
Fonte: Agência Brasil — Inflação oficial de agosto fecha em -0,32%, menor taxa em quatro anos.
COMERCIAL — A IA começa a participar da decisão antes mesmo de o cliente falar com o vendedor
Uma pesquisa da Stefanini Marketing aponta uma mudança interessante no comportamento esperado para a Black Friday.
Segundo o levantamento, 86% dos consumidores pesquisados pretendem utilizar inteligência artificial durante as compras de novembro, 11 pontos percentuais acima da pesquisa anterior.
Entre os usos mencionados estão:
49% para comparar preços;
47% para verificar se uma promoção realmente é vantajosa;
42% para avaliar a confiabilidade de lojas e marcas.
Existe outro dado especialmente interessante.
Em 91% dos prompts analisados no estudo, o consumidor não mencionou previamente uma marca ou loja específica. Mesmo assim, em 86% das respostas, a inteligência artificial acabou recomendando alguma marca.
Isso introduz um novo participante no processo de compra.
Antes de conversar com um vendedor, o consumidor pode perguntar:
Esse preço realmente está bom?
Essa promoção vale a pena?
Essa empresa é confiável?
Existe uma alternativa melhor?
A venda, portanto, pode começar muito antes do primeiro contato com a empresa.
E existe uma consequência importante: não basta apenas dizer que sua empresa é confiável, possui um bom produto ou oferece um preço competitivo.
O consumidor possui cada vez mais ferramentas para tentar confirmar essas informações antes de comprar.
O cliente está chegando mais informado. A venda começa cada vez mais antes da conversa com o vendedor.
Fonte: UOL / estudo Stefanini Marketing — levantamento sobre o uso de inteligência artificial pelos consumidores na Black Friday.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL — Quanto mais autonomia damos à IA, maior precisa ser o controle
Uma pesquisa da SAP em parceria com a Oxford Economics ouviu 2.600 líderes empresariais em 13 países, incluindo 200 no Brasil.
No recorte brasileiro, 55% das empresas já testaram casos de uso com agentes de inteligência artificial, e 77% acreditam que essa tecnologia possui potencial moderado ou alto para transformar suas organizações.
Mas os desafios apresentados pela pesquisa são tão interessantes quanto o entusiasmo.
Entre as empresas brasileiras pesquisadas:
61% encontraram esforço de integração maior que o esperado;
54% relataram problemas de confiabilidade ou qualidade ao escalar;
40% já enfrentaram agentes tomando ações incorretas;
e somente 3% se consideram totalmente preparadas para implementar e escalar agentes.
Há ainda outro sinal de atenção: 82% afirmaram que colaboradores utilizam ferramentas de IA de terceiros sem aprovação ou supervisão formal pelo menos ocasionalmente.
A diferença entre uma IA que responde e uma IA que age é importante.
Quando uma ferramenta responde incorretamente a uma pergunta, temos uma resposta ruim.
Quando um agente possui autonomia para executar uma tarefa, acessar informações ou tomar determinadas ações, um erro pode se transformar em uma ação errada dentro da operação.
Quanto maior a autonomia, maior precisa ser a preocupação com permissões, limites, dados e supervisão.
Quanto mais a IA puder fazer, mais importante será definir o que ela pode — e o que ela não pode — decidir sozinha.
Fonte: SAP Brasil / Oxford Economics — estudo sobre IA agêntica nas empresas brasileiras.
IA NA PRÁTICA — E se o problema não for falta de oportunidades, mas demora para atendê-las?
O Banco Daycoval enfrentou um problema bastante concreto.
Com a expansão do crédito consignado para trabalhadores CLT, a instituição chegou a receber picos de 300 mil simulações em um único dia.
Existia demanda.
O desafio era conseguir processá-la com velocidade suficiente.
O banco desenvolveu, em parceria com a Salesforce, uma operação apoiada por inteligência artificial.
O sistema recebe os dados do interessado, verifica informações, calcula o score, aplica a política de crédito e gera uma proposta.
A negociação pode continuar pelo WhatsApp.
Caso o cliente considere a taxa elevada, a IA pode apresentar uma contraproposta dentro de parâmetros previamente definidos. O processo também acompanha assinatura digital, validações e a liberação do dinheiro via Pix.
Situações que não podem ser resolvidas automaticamente são encaminhadas para atendimento humano.
Segundo o Daycoval, a implantação inicial aumentou as vendas em cinco vezes na primeira semana. Depois de ajustes e ampliação dos canais, a instituição relatou resultados de até 12 vezes o patamar inicial.
Mas o principal aprendizado não está em simplesmente utilizar IA para vender.
A empresa já possuía oportunidades.
O gargalo estava na capacidade de atendê-las.
Isso leva a uma pergunta interessante para qualquer operação comercial:
Antes de buscar mais leads, quantas oportunidades que já chegam à empresa estão sendo perdidas por demora, falta de acompanhamento ou excesso de trabalho manual?
Nem todo problema comercial é falta de oportunidade. Às vezes, o problema é não conseguir atender bem as oportunidades que já existem.
Fonte: Folha de S.Paulo — caso Daycoval sobre automação do crédito consignado CLT com inteligência artificial.
O que levamos desta semana?
Os quatro movimentos desta edição apontam para algo em comum.
A deflação mostra que um indicador geral não representa necessariamente a realidade financeira de cada empresa.
O comportamento previsto para a Black Friday mostra um consumidor utilizando novas ferramentas para investigar preço, promoção e credibilidade antes da compra.
O avanço dos agentes de inteligência artificial mostra que adoção e autonomia precisam vir acompanhadas de controle, integração e governança.
E o Daycoval mostra que tecnologia pode produzir impacto significativo quando começa por um problema concreto: havia oportunidades chegando, mas a capacidade operacional não acompanhava a demanda.
Em todos esses casos, existe uma segunda camada de informação que só aparece quando deixamos de olhar apenas para o primeiro número.
Talvez essa seja a principal reflexão desta semana:
A melhor decisão geralmente começa com uma segunda pergunta: “o que existe por trás desse número?”
Sobre o Radar Planeja
Radar Planeja é uma curadoria semanal sobre finanças, vendas e inteligência artificial para quem precisa tomar decisões.
Toda semana, selecionamos acontecimentos, pesquisas e casos reais — com prioridade para o Brasil — que merecem alguns minutos da atenção de quem administra uma empresa.
Planeja — Estratégia, Execução e Resultado

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